A dor do abandono humano

“Somente Lucas está comigo” (2 Timóteo 4:11).

Por volta do ano 64 d.C., Roma sofreu um incêndio que devastou boa parte da cidade, durante nove dias, especialmente as localidades onde moravam os mais pobres. O imperador Nero estava fora da cidade. Ao retornar, apresentou o projeto de um elaborado complexo chamado “Casa Dourada”, a ser construído no local onde antes moravam aquelas famílias pobres. As pessoas sofridas com os danos começaram a desconfiar de que o próprio imperador havia causado o incêndio visando a um propósito ambicioso. O sanguinário imperador, por sua vez, lançou a culpa nos cristãos, que eram odiados por se negarem a participar dos festivais pagãos e da adoração ao imperador.

Nero ordenou que os cristãos fossem perseguidos e mortos. Uns foram dilacerados por cães, outros queimados como tochas para iluminar suas festas e seus jardins. Entre os muitos que morreram nesse período estavam Pedro, que foi crucificado, e Paulo, decapitado, pelo fato de ser um cidadão romano. Nesta condição de cidadania, não podia ser crucificado.

Na Segunda Epístola de Paulo a Timóteo, uma carta pastoral impactante, emocionante, consoladora e instrutiva, escrita sob a inspiração do Espírito Santo, para confortar, animar e fortalecer seu discípulo e filho na fé, o apóstolo expõe  sua situação, em seus últimos dias de vida. Também relata a dor do abandono humano.

Percebam que, até mesmo para o homem que trazia no corpo “as marcas de Cristo”, causadas pelas chicotadas e apedrejamentos, pelas surras, em pelo menos três ocasiões, quando foi fustigado com varas, além de outros atos de violência que lhe foram impostos, como dura reação dos inimigos da fé cristã à fiel pregação do Evangelho, sofreu por causa do abandono humano.

É relevante reconhecer que Paulo não foi um super homem, longe disso; antes, foi um homem de carne e osso, com a mesma natureza e sujeito às mesmas paixões que nós. 

Todos, exceto Lucas, foram embora e o deixaram (4:9-11,21). Alguns se ausentaram para pregar em outras localidades (4:10-12). Crescente tinha ido para a Galácia, Tito para Dalmácia e Tíquico para Éfeso. Paulo sentia a falta desses companheiros de ministério. Outros, porém, o abandonaram na difícil hora de sua aflição. “Porque Demas, tendo amado o presente século, me abandonou e se foi para Tessalônica” (…) “Na minha primeira defesa ninguém foi a meu favor; antes, todos me abandonaram. Que isto não lhes seja posto em conta” (4:10,16).

A deserção de Demas, um ex-cooperador, conforme lemos em Colossenses 4:14 e Filemom 24, causou uma enorme dor ao coração do apóstolo que tanto amava a Jesus e aos seus irmãos. Demas abandonou o apóstolo no momento de grande carência de comunhão cristã. Todavia, pior do que isto, foi o abandono da fé, ou a aparente apostasia de Demas.

Acrescento outra situação bastante penosa, a oposição de Alexandre, o latoeiro, um artífice em bronze (4:14,15). “Ele causou-me muitos males”.

Por fim, outra experiência triste foi perceber que, na sua primeira defesa, não houve uma única pessoa que tenha se levantado a seu favor. Ninguém apareceu para apoiá-lo (4:16-18). Mesmo assim, Paulo não desfaleceu, pois o Senhor permaneceu ao seu lado.

Sempre que leio os versículos dezesseis e dezessete, fico emocionado: “Na minha primeira defesa ninguém foi a meu favor; antes, todos me abandonaram. Que isto não lhes seja posto em conta. Mas o Senhor me assistiu e me revestiu de forças para que, por meu intermédio, a pregação fosse plenamente cumprida, e todos os gentios a ouvissem; e fui libertado da boca do leão”.

Paulo sofreu a dor do abandono humano, mas nunca o abandono do Senhor. Lembre-se disso sempre, especialmente, nos momentos mais agudos da vida.

Concluo, com as palavras graciosas e confortadoras do Senhor: “Eis que estou convosco todos os dias” e, “de maneira alguma te deixarei, nunca jamais te abandonarei. Assim, afirmemos confiantemente: O Senhor é o meu auxílio, não temerei; que me poderá fazer o homem?” (Mateus 28:20; Hebreus 1 3:5,6).

No amor de Jesus,

Lutero Rocha



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